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Formação médica da USP inspirada em Paulo Freire é destaque em conferência internacional
Disciplina da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto aproxima estudantes da realidade dos serviços de saúde e leva princípios da pedagogia freireana à formação médica
Por Rose Talamone - 18/09/2026


Estudantes e professores durante atividades do Simpósio ASClépios de Gestão em Saúde, incorporado em 2026 à disciplina Atenção à Saúde da Comunidade III da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Foto: Departamento de Medicina Social da FMRP.


Entrar nos serviços de saúde, conhecer as dificuldades de acesso, acompanhar histórias de vida dos pacientes e entender como a gestão e as políticas públicas interferem no atendimento fazem parte da formação dos estudantes de Medicina da USP em Ribeirão Preto. Desenvolvida na disciplina Atenção à Saúde da Comunidade III, a experiência incorpora princípios da pedagogia de Paulo Freire ao ensino médico e será apresentada na Conferência Paulo Freire 2026, nos dias 18 e 19 de setembro, na Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos.

Selecionado para apresentação presencial, o trabalho Significant experiences in medical education: building reflective, critical, and transformative practices in healthcare mostra como a disciplina trabalha a gestão em saúde no Sistema Único de Saúde com estudantes do terceiro ano de Medicina. A proposta integra um eixo de formação que começa no primeiro ano do curso e busca aproximar a clínica da saúde coletiva, considerando a epidemiologia, as ciências sociais e humanas e a política, o planejamento e a gestão em saúde.

A conferência tem como tema em 2026 Freire no mundo: das práticas educativas à transformação de sistemas educacionais e reúne palestras, mesas de debate, apresentação de trabalhos e outras atividades voltadas à obra de Paulo Freire e à sua presença em práticas educacionais e políticas públicas.

A disciplina Atenção à Saúde da Comunidade começa no primeiro ano do curso, tem continuidade no segundo e, no terceiro, aprofunda a discussão sobre gestão em saúde no Sistema Único de Saúde. De acordo com os professores Maria do Carmo Caccia-Bava e Carlos Rezende, do Departamento de Medicina Social, o objetivo é colocar os estudantes, desde os primeiros anos, em contato com a atividade médica vinculada ao contexto social.

A experiência é resultado de um trabalho desenvolvido por docentes do Departamento de Medicina Social. Uma das mudanças ocorreu a partir de uma proposta da professora Maria do Carmo Caccia-Bava de acrescentar uma dimensão prática e vivencial aos conteúdos relacionados à gestão em saúde. Rezende passou a participar da iniciativa em fevereiro de 2025, após sua contratação como professor na área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde.

Do serviço de saúde para a sala de aula

Na disciplina, os estudantes entram em contato com serviços de saúde e observam sua dinâmica de funcionamento, as formas de acesso e suas dificuldades. Também acompanham histórias de vida dos pacientes, seus contextos e redes de apoio e analisam as respostas oferecidas pela atividade médica às diferentes demandas.

A proposta inclui a observação de como a gestão e as políticas de saúde interferem nessa dinâmica e, ao mesmo tempo, são influenciadas por ela. Segundo Caccia-Bava, a intenção é trabalhar com experiências capazes de produzir significado para os estudantes e contribuir para que o futuro profissional participe do aperfeiçoamento e da implementação do Sistema Único de Saúde.

Essa aproximação com a realidade dos serviços também está relacionada à maneira como os professores incorporam princípios da pedagogia de Paulo Freire ao ensino médico. Um dos pontos destacados por Rezende é o desenvolvimento de uma visão crítica e a substituição de uma relação vertical, na qual o professor seria o único detentor do conhecimento, por outra forma de construção do aprendizado.

“Se fazemos isso em sala de aula, como podemos desejar que os futuros médicos não repliquem a mesma sistemática com os pacientes que irão receber?”, questiona o professor.

Paulo Freire aplicado à educação médica

A oportunidade de apresentar a experiência internacionalmente surgiu quando os professores tiveram acesso à chamada da Conferência Paulo Freire. Segundo Rezende, a equipe identificou uma proximidade entre a proposta pedagógica da disciplina e um dos eixos previstos pelo encontro.

O trabalho foi submetido ao eixo Da Sala de Aula à Política Pública, que contempla estudos de caso e análises sobre a presença do pensamento freireano em novas práticas pedagógicas, currículos, reformas estruturais e políticas educacionais.

Rezende afirma que um dos diferenciais da experiência é demonstrar a possibilidade de utilizar uma perspectiva freireana também na formação médica. “Não estamos falando da formação de professores ou fazendo complexas discussões pedagógicas; estamos horizontalizando o aprendizado com visão crítica e vinculada à realidade dos pacientes, familiares, profissionais do serviço, serviços de saúde e, no contorno mais geral, o sistema de saúde que está em construção, o SUS”, afirma.

Segundo o professor, a disciplina também procura despertar nos estudantes o interesse por aspectos da medicina que ultrapassam o atendimento realizado dentro do consultório. “Uma das grandes conquistas foi apresentar aos alunos um modo prazeroso e interessante de lidar com a gestão em saúde. Ou seja, criar o desejo de entender como as coisas se dão para além do consultório”, diz.

Os professores ainda não realizaram uma pesquisa específica com os egressos para verificar os efeitos da experiência em sua atuação profissional. Rezende observa, entretanto, que estudantes de Medicina têm procurado trabalhos e projetos de iniciação científica na área de saúde pública. Segundo ele, uma pesquisa com egressos poderia avaliar esse aspecto.

Alunos apresentam experiências dos serviços de saúde

Em 2026, a disciplina passou a contar também com o Simpósio ASClépios de Gestão em Saúde. Nele, os estudantes trabalham a partir de dez atividades ou ambulatórios do Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Em diálogo com os coordenadores dos serviços, elaboram de forma autônoma apresentações seguindo regras semelhantes às adotadas em congressos científicos.

O nome ASClépios reúne uma referência a Asclépios, deus grego associado à medicina e à cura, às três primeiras letras de Atenção à Saúde da Comunidade. O simpósio foi incorporado à disciplina como atividade avaliativa dos estudantes.

Quando a experiência da disciplina foi submetida à Conferência Paulo Freire 2026, o simpósio ainda não havia sido realizado. Por esse motivo, foi mencionado na proposta, mas seus resultados não integram o trabalho que será apresentado na Universidade de Columbia.

Em 2026, a disciplina contou com a coordenação dos professores Maria do Carmo Caccia-Bava e Carlos Rezende e com a participação do docente sênior Juan Stuardo Yazlle Rocha e da docente voluntária colaboradora Trude Ribeiro da Costa Franceschini. Também participaram pós-graduandos do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino, residentes de Medicina de Família e Comunidade e um estudante de graduação que atuou como monitor.

As atividades tiveram ainda o apoio de supervisores de ambulatórios e serviços do Centro de Saúde Escola, entre docentes, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e profissionais administrativos. Parte deles acompanhou os estudantes em campo, supervisionou atendimentos e apresentou aspectos do funcionamento dos serviços, como custos, sistemas de agendamento e tempo de espera para atendimento.

Reconhecimento internacional

Para os professores, a seleção do trabalho dá visibilidade internacional a uma atividade que já vinha sendo desenvolvida na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. “Do ponto de vista institucional, resgata a visibilidade de uma atividade que já existia, mas era pouco entendida e valorizada, algo como perceber que o que é feito aqui pode ser de grande consideração em outras instituições no exterior”, afirma Rezende.

Segundo ele, o contato precoce dos estudantes com o contexto real de vida das pessoas e com os serviços de saúde também está relacionado às mudanças curriculares em andamento na formação médica.

A Conferência Paulo Freire 2026 é organizada pela Iniciativa Paulo Freire na Universidade de Columbia e tem três eixos de discussão, entre eles aquele em que o trabalho da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto foi selecionado, Da Sala de Aula à Política Pública. O encontro será realizado presencialmente, com atividades em português e inglês.

A participação da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto conta com apoio financeiro da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da USP e, segundo Rezende, integra as ações de internacionalização da Universidade.

Os professores destacam ainda a participação do Centro de Saúde Escola na experiência que será apresentada. “Do ponto de vista da formação dos futuros profissionais na área de conhecimento em saúde coletiva, isso significa que estamos cumprindo nosso papel”, afirma Caccia-Bava. Para ela, o Centro de Saúde Escola teve “um papel e um significado muito especiais nesta conquista” como campo de estágio dos estudantes.

 

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